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Povos testemunhas


Queiramos ou não, carregamos dentro de nós o nosso passado. O passado pessoal, mas também o nosso passado social, nosso passado de povo. Quando os europeus chegaram por essas bandas, não encontraram uma terra vazia. Calcula-se que moravam na Ilha Upaon-Açu cerca dez mil indivíduos, pertencentes à nação Tupinambá. Conforme informações de frei Claude d’Abeville, a princípio, o encontro dos europeus com os povos da terra foi bastante cordial. Logo, porém, estes descobriram que a vinda desses homens do mar – barbudos, malcheirosos, amarelados, por isso por eles apelidados de papagaios amarelos – não era uma boa notícia. Doenças desconhecidas, maus tratos, guerras de extermínio resultaram em um verdadeiro genocídio.

Há um mito recorrente na história do Maranhão, aliás, na história de toda América, que é o mito da terra vazia. Dados objetivos desmentem esse mito, provando que é completamente falso. Quando os europeus aportaram às Américas, encontraram aqui muitas nações indígenas, sendo que algumas dessas nações possuíam culturas, como a dos astecas e dos incas, que tinham chegado a sofisticados padrões técnicos. Outros povos, porém, viviam conforme padrões mais simples, como era o caso dos povos que os franceses e portugueses encontraram na região do que viria a ser a Província do Grão Pará. Alguns eram nômades ou seminômades e viviam da caça, da pesca e da coleta de frutas que encontravam nas florestas.

Não é fácil desconstruir um mito. Essa narrativa de terra vazia serve, até hoje, para legitimar a ocupação de terras, consideradas sem dono e sem moradores. Foi o que aconteceu no início de nossa história e vem se repetindo ao longo dos séculos. Lembre-se, por exemplo, o slogan utilizado para justificar a construção da Transamazônica: “Uma terra sem homens para homens sem terra”.

Quando os europeus aportaram ás Américas, encontraram aqui muitas nações indígenas, sendo que algumas dessas nações possuíam culturas, como a dos astecas e dos incas, que tinham chegado a sofisticados padrões técnicos


No mês de outubro, realizou-se em Roma o Sínodo para a Amazônia. Um dos temas abordados, como não podia deixar de ser, foi o cuidado pastoral com os povos originários, habitantes dessa imensa região da América do Sul. Conforme os estudos preparatórios, nos nove países que compõem a Pan-Amazônia, registra-se a presença aproximada de três milhões de indígenas, distribuídos por cerca de 390 povos diferentes. O número 27 do Documento Final do Sínodo faz referência a esses povos, quando diz:

É urgente dar à pastoral indígena o seu lugar específico na Igreja. Partimos de realidades plurais e culturas diversas para definir, elaborar e adotar ações pastorais que nos permitam desenvolver uma proposta evangelizadora em meio às comunidades indígenas, situando-nos no marco de uma pastoral indígena e da terra. A pastoral dos povos indígenas tem a sua própria especificidade. As colonizações motivadas pela atividade extrativa ao longo da história, com as diferentes correntes migratórias, colocaram-nas numa situação de grande vulnerabilidade. Neste contexto, como Igreja, segue sendo necessário criar ou manter uma opção preferencial pelos povos indígenas, em virtude da qual as organizações pastorais indígenas diocesanas devem ser estabelecidas e consolidadas com renovada ação missionária, que escuta, dialoga, está encarnada e com uma presença permanente.

Para construirmos uma sociedade mais justa, mais igualitária e ecologicamente mais equilibrada, é preciso começar reconhecendo os erros passados. Alguns fantasmas nos perseguem. Como exorcizá-los? As nações indígenas que sobrevivem no Brasil são povos testemunhas que nos questionam. Que país queremos construir? Que mundo queremos deixar para aqueles que nos sucederão? Temos o desafio de buscar novos modelos que nos direcionem a um desenvolvimento justo, solidário e sustentável. *Arcebispo de São Luís do Maranhão


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