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A vida como dom e compromisso

Dom José Belisário da Silva *





– O que devo fazer para herdar a vida eterna, pergunta o doutor da Lei a Jesus.

Em princípio, a pergunta traduz um sonho humano – o de possuir vida plena, não sujeita às vicissitudes do tempo presente. Conforme o texto de Lucas (10, 25ss) não era essa, porém, a intenção do doutor da Lei. “Ele queria colocar Jesus à prova”, diz o texto. O fato é que Jesus responde com outra pergunta:


–Que está escrito na Lei? Como lês?


Em sua resposta, o doutor da Lei sintetiza os preceitos da Lei em dois mandamentos – o amor a Deus e o amor ao próximo, isto é, a pessoa humana consegue a plenitude da vida saindo de si mesmo em direção a Deus e ao próximo. Jesus aprova a resposta:


– Respondeste corretamente. Faze isso e viverás.


O diálogo poderia ter terminado aqui, mas o doutor da Lei é insistente:

– E quem é meu próximo?


A essa última questão, Jesus prefere não discutir ou teorizar. Jesus propõe uma parábola que conhecemos como “A parábola do bom samaritano”.


– Descia um homem de Jerusalém para Jericó, assim começa Jesus.


Um homem, esse é o primeiro personagem. Ele não tem nome nem outras características que o identifiquem. É um anônimo, um ser humano, que é assaltado e deixado semimorto à beira do caminho. Passam por ali dois outros personagens, estes sim identificados pelas suas funções – um sacerdote e um levita. São, portanto, funcionários do culto. Ambos veem o homem ferido, mas “seguiram adiante pelo outro lado”. Mas, há um quarto personagem – um samaritano, isto é, uma pessoa meio pagã, não religiosa ou até herética, cuja companhia um crente prudentemente deve evitar. E aí, a narrativa de Jesus nos pega de surpresa. Este incréu, este meio pagão, não apenas viu, mas sentiu compaixão e cuidou dele.


A lição da parábola é clara, tanto que, ao final, Jesus se dirige ao perguntador, com o qual cada um de nós que estamos à procura da vida plena podemos nos identificar, e faz um convite:

– Vai e faze tu o mesmo.

* * *

Mais uma Quaresma e mais uma Campanha da Fraternidade. A temática de fundo das Campanhas da Fraternidade é sempre a mesma – a defesa e o serviço à vida. Jesus não deixou dúvidas sobre sua missão: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Por via de consequência, essa é também a missão dos discípulos e discípulas de Jesus.

O tema da Campanha da Fraternidade deste ano nos propõe uma reflexão sobre a vida em dois momentos. Primeiro como dom. De fato, a vida não é uma mercadoria, não é uma posse. Em segundo lugar, a vida é um compromisso, isto é, ela deve ser cuidada e defendida, nunca está plenamente pronta.

Padre Lebret que, com seus “Princípios para a ação”, despertou muitos sonhos nas gerações jovens da década de sessenta e setenta do século passado, insiste que devemos meditar e tornar a meditar o Evangelho do caminho de Jericó. Desde que a gente se mete a se preocupar seriamente, com a miséria – diz ele –, ela começa a irromper em volta de nós, sobre nós. É como uma maré montante – ela nos submerge. Devemos acolher antes de tudo em nosso coração a miséria do povo. É a menos merecida, a mais tenaz, a mais opressiva. Muita gente tem dó do povo, algumas pessoas o auxiliam, mas poucos se preocupam com as causas profundas da miséria.

O olhar cristão sobre a vida é um olhar de fé. Ao mesmo tempo em que identifica as sombras, deve também identificar as luzes. Não é um olhar amargo, desiludido, apenas com o que é negativo, diz o texto base da Campanha. É também um olhar de esperança que convida e conduz à solidariedade. É o olhar do samaritano que vê, tem compaixão e cuida da vida.


*Arcebispo de São Luís do Maranhão

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