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Ritos e fé

Por Carlos Nina /Jornalista e Advogado*


Quando a Igreja Católica deixou o Latim pelo idioma nacional de cada país, na celebração das missas, houve alguma reação porque os fiéis estavam habituados às formulações latinas, cujos significados já eram conhecidos, desde as primeiras palavras, “In nómine Patris ...”, passando pelos reiterados “Dóminus vobiscum”, “Et cum spíritu tuo”, e “Sursum corda”, até o “Glória tibi, Dómine”, antes da leitura do Evangelho final, geralmente o Capítulo 1º de São João. Assim constava do Missal Dominical de Mons. Dr. B. Vieira e Padre D. Pasquarelli, 6ª edição, das Edições Pincar Ltda., de São Paulo, de 1960, com o qual acompanhávamos as missas no Colégio Marista. E os padres também deixaram de celebrar as missas de costas para o público.


Essas mudanças foram salutares porque os fiéis passaram a saber exatamente o que o sacerdote estava dizendo. Postando-se de frente para os fiéis é evidente que melhorava sua comunicação.


A outras duas mudanças mais recentes, com certeza promovidas com a melhor das intenções, manifestei restrições, pelos riscos que elas ofereciam à saúde, embora essas possibilidades existissem antes delas, por simples questão de (falta de) educação. Refiro-me a dar-se as mãos em oração e a cumprimentar-se em nome da paz. Essa preocupação que eu já havia expressado antes vi confirmada pelas recentes medidas da Igreja de suspender tais costumes, em razão dos riscos de contágio do novo coronavírus. Ocorre que, antes desse vírus que está assustando o mundo, outras doenças já existiam, provocadas por vírus e bactérias transmitidos também pelo contato físico ou pelo simples convívio no mesmo espaço. E o dar-se as mãos nessa rotina religiosa de grandes proporções provavelmente possibilitava esse contágio. Os abraços da paz, da mesma forma, além do constrangimento de algumas situações, como ver-se compelido a cumprimentar ou abraçar alguém que, durante a missa esteve tossindo, espirrando ou assoando o nariz em evidente sintoma de forte gripe, senão de doença mais grave, da qual talvez nem mesmo o enfermo tenha conhecimento.


Foi, portanto, acertada, a decisão da Igreja de suspender essas práticas e até de adotar medidas mais radicais, como a de recomendar que as pessoas idosas não compareçam às missas, por serem as mais vulneráveis à letalidade do novo coronavírus, segundo especialistas no assunto. Medida essa já ampliada para todos.


Esse vírus, pela repercussão que ganhou, ensejou uma campanha de higiene pessoal sem precedentes, que, se as pessoas já tivessem os hábitos agora propalados, muitas outras infecções teriam sido evitadas. Pena que estejamos todos pagando um preço muito caro – e não sabemos ainda a extensão desse custo – pelo descaso no cuidado da higiene pessoal e dos ambientes em que vivemos, em casa, na escola, no trabalho, nos lugares de lazer, nos transportes, nos logradouros públicos, onde quer que estejamos, sozinhos ou em grupos.


Talvez esse vírus produza mudanças salutares nos hábitos individuais e coletivos e até faça com que as pes- soas estejam atentas para cobrar do Poder Público a segurança sanitária devida nos espaços de sua responsa- bilidade direta ou indireta, por dever de fiscalização.


Estou escrevendo este texto nos idos de março. Espero que, quando publicado, a situação tenha melhorado. E que as mudanças nos ritos não tenham afetado a nossa fé, que deve estar acima de todas as tragédias.


*Articulista do Jornal do Maranhão, periódico impresso mensal da Arquidiocese.

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