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Procissões da Quaresma uma perspectiva histórica para um recomeço

Dorivan Lima, Pascom Sé



A Quaresma é o tempo litúrgico que precede o período da Semana Santa, da Morte e da Ressurreição de Nosso Senhor, o mistério Pascal. É um momento em que a Igreja nos dá para que vivamos verdadeiramente o tempo da Páscoa, onde refletimos sobre nossas atitudes, buscando através do jejum, da caridade e de orações, edificar as nossas vidas.


Em nossa Cidade, resistem ao tempo, as tradicionais procissões da Quaresma, preservadas por irmandades e grupos de fieis, legando às gerações, uma cultura da igreja de São Luís.


As irmandades que ainda existem, muito diferentes do tempo de fundação, buscam principalmente, através das procissões, mostrar a tradição secular e um dos motivos de existirem. Eram, à princípio, formadas somente por homens, de boa origem e com moral reconhecida na sociedade da época. Não era permitido o ingresso de mulheres e de escravos. Algumas, previam a possibilidade de ingresso de irmão livres e escravos (com a devida licença de seus senhores). Porém, ao longo das décadas, isso foi mudando e hoje, nos quadros das irmandades ainda existentes, a participação das mulheres e também dos jovens é considerável.


É importante fazer a memória das procissões que existiam em São Luís, durante a Quaresma. Iniciava este tempo, com a Procissão dos Passos, da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, que era da Igreja do Carmo, que saía na primeira sexta-feira após o carnaval, passando pelos passos da Quaresma. Em seguida, sempre às sextas-feiras, saía a Procissão do Senhor Bom Jesus da Coluna, cuja irmandade tem o mesmo nome e ainda funciona em sua capela, na Igreja de Santo Antônio. Depois saía a Procissão do Senhor Bom Jesus dos Martírios, que era organizada pela comunidade da Igreja de Santana. Na quarta sexta-feira, saía a Procissão do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, da capela do Convento das Mercês. Porém, com o fechamento do local, a irmandade se transferiu para a Igreja do Desterro. Neste ano, será retomada a procissão, saindo no dia 27 de março, percorrendo as ruas próximas à Igreja do Desterro. E, antecedendo a Semana Santa, ainda saem as Procissões da Fugida e do Encontro. Na Semana Santa, mais precisamente na sexta-feira, acontecem duas Procissões do Senhor Morto, uma saindo da Igreja da Sé e a outra, da Igreja de Santo Antônio, que é de responsabilidade da Irmandade do Senhor Bom Jesus da Coluna.


Atualmente, ainda podemos presenciar algumas procissões no período da Quaresma. A primeira a sair é a Procissão do Senhor Bom Jesus da Coluna, da irmandade de mesmo nome, cuja capela se encontra na Igreja de Santo Antônio. A procissão sai da Igreja, percorrendo algumas ruas do Centro, recolhendo novamente na Igreja.


Em seguida, temos a Procissão da Fugida que é uma devoção popular muito valorizada pelos fiéis e é realizada antes do Domingo de Ramos. Ela revive o momento em que Cristo se recolheu ao Monte das Oliveiras para rezar. Este ano a imagem do Senhor Bom Jesus deixará a Igreja de Santo Antônio, no dia 28 de março, e irá em procissão para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e São Benedito, acompanhada pelos fiéis, onde permanecerá até o dia seguinte, 29 de março.


Assim, no dia seguinte (29 de março), ocorre a tradicional Procissão do Encontro pelas ruas do Centro Histórico de São Luís, relembrando o encontro de Jesus e Maria, a caminho do Calvário. As duas imagens sairão de Igrejas diferentes: a imagem de Bom Jesus dos Passos seguirá da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e São Benedito, enquanto a imagem de Nossa Senhora das Dores sairá, no mesmo horário, da Igreja de Santo Antônio. Elas se encontrarão como de costume, na esquina da Igreja do Carmo e, neste momento, ficarão frente a frente, simbolizando o sofrimento de Maria com seu Filho que carrega a cruz. Em seguida, ocorre a pregação do sermão, que nos mostra a importância da entrega de Jesus para a salvação da humanidade e também de Nossa Senhora como uma mulher corajosa, que nunca abandona seu Filho. A procissão com a imagem de Bom Jesus dos Passos faz memória ao trajeto percorrido por Jesus Cristo desde sua condenação a morte na cruz até seu sepultamento.


As mulheres na procissão


É de costume também, as mulheres acompanharem o andor de Nossa Senhora das Dores sempre com cantos penitenciais. Elas representam as figuras bíblicas das “mulheres piedosas”: Verônica, que durante a caminhada de Jesus até o Calvário, surge no meio do povo e enxuga o rosto de Jesus todo ensanguentado com uma toalha, na qual ficou estampada sua face; também Maria Madalena e tantas outras mulheres que acompanharam Jesus até o Calvário. Durante a procissão, a Verônica entoa três vezes o hino de lamento, mostrando em seguida o pano todo ensanguentado e com as impressões do rosto de Jesus.


Os homens e o andor


A participação dos homens durante todo o percurso é de suma importância também, pois eles levam a imagem de Bom Jesus dos Passos, lembrando a figura de Jesus coroado de espinhos, todo coberto de sangue e carregando a cruz nas costas durante toda a procissão até a Capela do Bom Senhor Jesus dos Navegantes, na Igreja de Santo Antônio.


Muitas pessoas guardam esta memória e tradição das procissões em nossa Cidade. Uma destas é o jornalista e produtor cultural Henrique Machado, que nos contou um pouco de sua relação com este momento de fé. Ele lembra que “Na verdade, minha história com as procissões quaresmais, começou na Irmandade dos Navegantes. Desde criança acompanhava as procissões do Encontro, Fugida e Senhor Morto e ajudava Seu Augusto na preparação das solenidades”. E, frisou que “Até antes de vir embora para Brasília participava do grupo que carregava o andor de Nossa Senhora das Dores, na Procissão do Encontro”. Cabe esclarecer que este andor era sempre carregado pelas mulheres, mas ao longo dos anos, foi necessária a ajuda masculina, pois a tradição estava se perdendo, em razão da falta de apoio feminino no momento da procissão.


Com relação ao resgate da Procissão do Senhor Bom Jesus da Coluna, relatou que “o engraçado é que a Procissão da Coluna surgiu de uma conversa (aposta), que tive com Seu Augusto Aranha, sobre voltar a Procissão da Coluna. Estávamos finalizando a preparação da Procissão do Encontro de 1990. Eu virei para ele e disse: Seu Augusto estava olhando a capela da Coluna tão abandonada e estou pensando em tomar de conta dessa capela e voltar a procissão. O que o senhor acha? Ele respondeu: eu duvido. E aí ele (seu Augusto) foi me contando um pouco da história da Irmandade, como era a situação administrativa da capela, onde e com quem estavam os objetos processionais”.


Em seguida, explicou que, com as orientações da senhora Graça Sardinha, que era diretora do Museu Histórico e Artístico à época, procurou os senhores Cesar Borges de Pádua e Antônio Cardoso, remanescentes da Irmandade da Coluna, que lhe deram a autorização para representar a Irmandade do Senhor Bom Jesus da Coluna. E, após uma grande e cuidadosa faxina, a capela foi reaberta depois de 35 anos, para visitação pública. E, com a vinda do Papa João Paulo II à São Luís, a capela foi restaurada, assim como a imagem do Bom Jesus. Outro momento importante, foi em 1991, com o retorno da Procissão do Bom Jesus da Coluna, resgatando a tradição quase perdida no período quaresmal. Finalizou.

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