Mensagem ao Povo de Deus é divulgada no encerramento da Assembleia Geral da CNBB


(Imagem: site da CNBB)

Como acontece tradicionalmente no encerramento da Assembleia Geral da CNBB, foi divulgada a Mensagem ao Povo de Deus.


Entre os temas abordados, estão a preocupação com a situação política no Brasil, e a percepção de que a pandemia gerou uma onda de solidariedade entre o Povo de Deus.


Em São Luís (MA), do local onde participou da Assembleia em modo remoto, dom Gilberto Pastana gravou mensagem reforçando a importância de todos lerem a missiva.


O prelado também concedeu entrevista para Rede Vida Nacional, onde falou sobre os temas centrais da Assembleia, que nesse ano abordou 32 pautas, dentre eles: 70 anos de existência da CNBB; 15 anos do Documento de Aparecida e sobre a Mensagem ao Povo de Deus.


Acesse abaixo, na íntegra, da Mensagem ao Povo de Deus:


P – Nº. 0099/22

MENSAGEM AO POVO BRASILEIRO

59ª.


Assembleia Geral da CNBB

“A esperança não decepciona” (Rm 5,5).


Guiados pelo Espírito Santo e impulsionados pela Ressurreição do Senhor, unidos ao. Papa Francisco, nós, bispos católicos, em comunhão e unidade, reunidos para a primeira etapa da 59ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, de modo on-line e com a representação de diversos organismos eclesiais, dirigimos ao povo brasileiro uma mensagem de fé, esperança e corajoso compromisso com a vida e o Brasil.


Enche o nosso coração de alegria perceber a explosão de solidariedade, que tem marcado todo o País na luta pela superação do flagelo sanitário e social da COVID-19. A partilha de

alimentos, bens e espaços, a assistência a pessoas solitárias e a dedicação incansável dos profissionais de saúde são apenas alguns exemplos de incontáveis ações solidárias. Gestores de saúde e agentes públicos, diante de um cenário de medo e insegurança, foram incansáveis e resilientes. O Sistema Único de Saúde-SUS mostrou sua fundamental importância e eficácia para a proteção social dos brasileiros. A consciência lúcida da necessidade dos cuidados

sanitários e da vacinação em massa venceu a negação de soluções apresentadas pela ciência.

Contudo, não nos esquecemos da morte de mais de 660.000 pessoas e nos solidarizamos com

as famílias que perderam seus entes queridos, trazendo ambas em nossas preces.


Agradecemos ainda, de modo particular às famílias e outros agentes educativos, que não se descuidaram da educação das crianças, adolescentes, jovens e adultos, apesar de todas as

dificuldades. Com certeza, a pandemia teria consequências ainda mais devastadoras, se não

fosse a atuação das famílias, educadores e pessoas de boa vontade, espírito solidário e

abnegado. A Campanha da Fraternidade 2022 nos interpela a continuar a luta pela educação

integral, inclusiva e de qualidade.

A grave crise sanitária encontrou o nosso País envolto numa complexa e sistêmica crise ética, econômica, social e política, que já nos desafiava bem antes da pandemia, escancarando a desigualdade estrutural enraizada na sociedade brasileira. A COVID-19, antes de ser

responsável, acentuou todas essas crises, potencializando-as, especialmente na vida dos mais

pobres e marginalizados.


O quadro atual é gravíssimo. O Brasil não vai bem! A fome e a insegurança alimentar são um escândalo para o País, segundo maior exportador de alimentos no mundo, já castigado

pela alta taxa de desemprego e informalidade. Assistimos estarrecidos, mas não inertes, os

criminosos descuidos com a Terra, nossa casa comum. Num sistema voraz de “exploração e

degradação” notam-se a dilapidação dos ecossistemas, o desrespeito com os direitos dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, a perseguição e criminalização de líderes socioambientais, a precarização das ações de combate aos crimes contra o meio ambiente e projetos parlamentares desastrosos contra a casa comum.


Tudo isso desemboca numa violência latente, explícita e crescente em nossa sociedade. A crueldade das guerras, que assistimos pelos meios de comunicação, pode nos deixar

anestesiados e desapercebidos do clima de tensão e violência em que vivemos no campo e nas

cidades. A liberação e o avanço da mineração em terras indígenas e em outros territórios, a flexibilização da posse e do porte de armas, a legalização do jogo de azar, o feminicídio e a repulsa aos pobres, não contribuem para a civilização do amor e ferem a fraternidade universal.


Diante deste cenário esperamos que os governantes promovam grandes e urgentes mudanças, em harmonia com os poderes da República, atendo-se aos princípios e aos valores

da Constituição de 1988, já tão desfigurada por meio de Projetos de Emendas Constitucionais.


Não se permita a perda de direitos dos trabalhadores e dos pobres, grande maioria da população

brasileira. A lógica do confronto que ameaça o estado democrático de direito e suas instituições, transforma adversários em inimigos, desmonta conquistas e direitos consolidados, fomenta o ódio nas redes sociais, deteriora o tecido social e desvia o foco dos desafios fundamentais a serem enfrentados.


Nesse contexto, iremos este ano às urnas. O cenário é de incertezas e radicalismos, mas, potencialmente carregado de esperança. Nossas escolhas para o Executivo e o Legislativo determinarão o projeto de nação que desejamos. Urge o exercício da cidadania, com consciente participação política, capaz de promover a “boa política”, como nos diz o Papa Francisco.


Necessitamos de uma política salutar, que não se submeta à economia, mas seja capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, como as conquistas da Lei da Ficha Limpa, Lei Complementar 135 de 2010, que afasta do pleito eleitoral candidatos

condenados em decisões colegiadas, e da Lei 9.840 de 1999, que criminaliza a compra de votos.

Não existe alternativa no campo democrático fora da política com a ativa participação no processo eleitoral.


Tentativas de ruptura da ordem institucional, hoje propagadas abertamente, buscam colocar em xeque a lisura do processo eleitoral e a conquista irrevogável do voto. Tumultuar o processo político, fomentar o caos e estimular ações autoritárias não são, em definitivo, projeto de interesse do povo brasileiro. Reiteramos nosso apoio às Instituições da República, particularmente aos servidores públicos, que se dedicam em garantir a transparência e a integridade das eleições.


Duas ameaças merecem atenção especial. A primeira é a manipulação religiosa, protagonizada tanto por alguns políticos como por alguns religiosos, que coloca em prática um

projeto de poder sem afinidade com os valores do Evangelho de Jesus Cristo. A autonomia e

independência do poder civil em relação ao religioso são valores adquiridos e reconhecidos pela

Igreja e fazem parte do patrimônio da civilização ocidental. A segunda é a disseminação das fake news, que através da mentira e do ódio, falseia a realidade. Carregando em si o perigoso potencial de manipular consciências, elas modificam a vontade popular, afrontam a democracia e viabilizam, fraudulentamente, projetos orquestrados de poder. É fundamental um compromisso autêntico com a verdade e o respeito aos resultados nas eleições. A democracia brasileira, ainda em construção, não pode ser colocada em risco.


Conclamamos toda a sociedade brasileira a participar das eleições e a votar com consciência e responsabilidade, escolhendo projetos representados por candidatos e candidatas

comprometidos com a defesa integral da vida, defendendo-a em todas as suas etapas, desde a concepção até a morte natural. Que também não negligenciem os direitos humanos e sociais, e nossa casa comum onde a vida se desenvolve. Todos os cristãos somos chamados a preocuparmo-nos com a construção de um mundo melhor, por meio do diálogo e da cultura do encontro, na luta pela justiça e pela paz.


Agradecemos os muitos gestos de solidariedade de nossas comunidades, por ocasião da

pandemia e dos desastres ambientais. Encorajamos as organizações e os movimentos sociais a continuarem se unindo em mutirão pela vida, especialmente por terra, teto e trabalho.


Convidamos a todos, irmãos e irmãs, particularmente a juventude, a deixarem-se guiar pela

esperança e pelo desejo de uma sociedade justa e fraterna. Nossa Senhora Aparecida, Padroeira

do Brasil, obtenha de Deus as bênçãos para todos nós.



Brasília – DF, 29 de abril de 2022.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo de Belo Horizonte – MG

Presidente da CNBB


Dom Jaime Spengler

Arcebispo de Porto Alegre, RS

1º Vice-Presidente


Dom Mário Antônio da Silva

Bispo de Roraima, RR

2º Vice-Presidente


Dom Joel Portella Amado

Bispo auxiliar do Rio de Janeiro, RJ

Secretário-Geral