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Proclamar a família é anunciar boa e verdadeira notícia


Se no mundo se proclama falsamente a família como instituição falida, ao contrário, papa Francisco diz que a família é boa notícia, e mais, quando da exacerbação das fake News, ensina que o antídoto ao vírus do falso anúncio é a verdade anunciada.

Em tempo que a Igreja se prepara para o Sínodo da Juventude, a acontecer em outubro deste ano no Vaticano, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Lætitia, “Alegria do Amor”, traz, da juventude, uma boa notícia. Publicada pelo papa Francisco em 2016, na solenidade de São José, o guardião da Família Sagrada, a 19 de março, a exortação traz em suas primeiras linhas a constatação que, mesmo diante dos “numerosos sinais de crise no matrimônio”, na juventude, sobretudo, permanece vivo o sentimento de (constituir) família. Como escreve o papa “o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia”!

Pensar a família à luz da Palavra e do magistério

O papa alerta no primeiro capítulo da exortação sobre a necessidade do lar ser a casa segura construída sobre a rocha (cf. Mt 7, 24-27), isto é, sobre o amor fraterno. Nas sagradas escrituras, João em sua carta explica que “aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 Jo 4,8). Os valores cristãos, portanto, imprimem nos lares a presença de Deus, e por essa razão indubitável, o amor fraterno se plenifica, constituindo a presença pastoral da Igreja no lar como sinal afirmativo que Deus ali habita: “A família é chamada a compartilhar a oração diária, a leitura da Palavra de Deus e a comunhão eucarística, para fazer crescer o amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito (Cf Amoris Lætitia pág. 22). Anunciar Deus nos lares, anunciar a família ao mundo, é boa notícia!

Deus se fez família: desde a criação se constitui comunidade una e trina na constância eterna do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Três também são a Sagrada Família, ponto alto na história da Salvação. “Com este olhar feito de fé e amor, de graça e compromisso, de família humana e Trindade divina, contemplamos a família que a Palavra de Deus confia nas mãos do marido, da esposa e dos filhos, para que formem uma comunhão de pessoas que seja imagem da união entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (Cf Amoris Lætitia pág. 22). Compreender a Sagrada Família, pai, mãe e Filho, fiel ao modelo trino, é compreender intrinsecamente que a história humana se construiu sobre famílias, uma sob a outra, geração após geração, aliás, “a capacidade que o casal humano tem de gerar é o caminho por onde se desenrola a história da salvação” (Cf Amoris Lætitia pág. 11), de Davi (e toda a sua ascendência) à Sagrada Família.

“A relação fecunda do casal torna-se uma imagem para descobrir e descrever o mistério de Deus, fundamental na visão cristã da Trindade que, em Deus, contempla o Pai, o Filho e o Espírito de amor. O Deus Trindade é comunhão de amor; e a família, o seu reflexo vivente” (Cf Amoris Lætitia pág. 11). Portanto, pensar a família cristã é pensar, no lar, e no mundo, o lugar histórico de fé que cabe aos três.

O homem não é criado para a solidão, é criado para viver a bênção da família. Ele é convidado já nos primórdios a renunciar suas origens para construir sua própria história (Cf Gn 2, 24), seu lar. Tem a igual responsabilidade de conduzir a família nos caminhos retos do Senhor. Como dito no Salmo 127 “como é feliz quem teme ao Senhor, quem anda em seus caminhos!”. O mesmo para a mulher. Na casa, a mulher é a videira frutífera (Cf Sl 127), é aquela que dar bons frutos (Cf Mc 4,20) de fé e vida e que persevera (Cf Lc 8, 15) nos valores cristãos; os filhos são sinais da graça pois representam a vida, a grande e primeira bênção divina concedida a humanidade. São eles os ramos de oliveira ao redor da mesa (Cf Sl 127), com efeito, não estão soltos à própria sorte, mas ligados naturalmente à sua família, são responsabilidade de seus progenitores e responsáveis pela continuidade da vida, por ser eles as ramificações da cultura e da história continuada de suas gerações.

Quando, porém, a separação no lar se faz decisão, não se constitui caminho, mas se concretiza como realidade pela dureza do coração humano (Cf Mc 10, 5), que pelo desamor, difere do coração divino, todo Ele amor. Deus é família, Deus é amor. Deus é caminho, verdade e vida que conduz, pela misericórdia, todos de volta ao seu coração pelo perdão. “As crises conjugais são enfrentadas muitas vezes de modo apressado e sem a coragem da paciência, da averiguação, do perdão recíproco, da reconciliação e até do sacrifício. Deste modo, os falimentos dão origem a novas relações, novos casais, novas uniões e novos casamentos, criando situações familiares complexas e problemáticas para a opção cristã” (Cf Amoris Lætitia pág. 34).

Números que ajudam a compreender a família contemporânea

Um olhar volvido para a contemporaneidade ajuda a compreender os caminhos complexos e problemáticos da família brasileira. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, revelada em julho de 2018, a população do país continuará a manter o ritmo de crescimento nos próximos vinte anos, em 2047, haverá 233,2 milhões de brasileiros. Um número que deverá decrescer nos vinte anos seguintes, nos idos de 2060, quando, aproximadamente, seremos 228, 3 milhões. Ressalta-se que hoje são 208 milhões de brasileiros. Embora o país, em 2047, venha a atingir expressivo número populacional, no Maranhão, haverá regresso por conta da migração das famílias para outros estados.

Quanto à fecundidade, foi percebida uma estabilidade na taxa, embora sua tendência seja de queda. Para 2060, segundo o IBGE, o número médio de filhos por mulher deverá ser 1,66. De contramão à média nacional, o Maranhão está entre os estados que continuará com maior taxa de fecundidade, com 1,80, muito acima da média. A pesquisa revelou ainda que, em 2018, as mulheres brasileiras têm filhos em média aos 27 anos, em 2060, essa idade subirá para os 28 anos.

Os homens viverão mais, a média atual é de 72,74, em 2060, subirá para 77,9. As mulheres deverão viver mais anos ainda, hoje sua média é 79,8, em 2060, será de 84,5 como aponta a pesquisa do instituto. Atualmente são os maranhenses que vivem menos no país, com a menor expectativa de vida para os nascidos em 2018, 71,1. Em 2060, o estado deverá deixar a última posição do ranking, porém, permanecerá entre os lanternas.

Em 2060, um quarto da população brasileira será de idosos. Em 21 anos, ou seja, em 2039, esta mudança já será uma realidade: o país terá mais idosos que crianças. O número de pessoas com mais de 65 anos passará dos atuais 9,2% para 20% em 2046, chegando a 25,5% em 2060. Isso se dará pela queda na taxa de fecundidade e pelo aumento da expectativa de vida no país.

Pouco mais de quarenta anos depois da Lei do Divórcio no Brasil, criada em 1977, que permitiu a separação e a possibilidade de contrair segunda união, outra pesquisa realizada pelo IBGE que aponta dados sobre casamentos no país, revela que o número de dissolução vem crescendo ao longo dos anos. Com dados coletados entre os anos de 1984 e 2016, revela o IBGE que nos idos de 80 o divórcio mantinha a porcentagem de 10% do total de casamentos, em números, 93,3 mil separações. Essa porcentagem cresceu para 31,4% em 2016 – com 1,1 milhão de casais que contraíram união e 344 mil que optaram pela separação. No quadro geral, de 1984 a 2016, houve mais de 7 milhões de dissoluções frente à 29 milhões de matrimônios, por dia, são 580 divórcios registrados no país. Pelo menos um divórcio a cada três casamentos.

A pós separação se constitui outra realidade familiar. Com ajuda de pesquisa realizada também pelo IBGE em 2005, se encontra em 2015, após uma década de pesquisa, o número de 11,6 milhões de mães solteiras. Uma outra face dessa realidade, é que no quadro geral esse percentual não apresentou elevação, isto pois, apareceram com relevância o número de famílias sem filhos e da família unipessoal, isto é, das pessoas solteiras, viúvas e separadas, juridicamente enquadradas como família no país. Porém se consideradas apenas as famílias com filhos, as mães solteiras ocupam mais de um quarto do total, embora estejam as mulheres crescendo em seu grau de escolaridade, diminuindo sua taxa de fecundidade e deixando para mais tarde a geração de filhos. Uma realidade paradigmática muito forte no cenário nacional. Embora as mães solteiras sejam tópico de pesquisa nacional, papa Francisco afirma que não existe mãe solteira, mãe é mãe, não estado civil. Uma outra face para esta apuração.

Pastorear a família

Em décadas, teremos famílias com um número menor de crianças, e mais envelhecidas. O número de mães sem esposos ainda é muito grande e continua a crescer. No Maranhão, a taxa de fecundidade ainda é alta e o IDH baixo. Por décadas a frente o estado continuará a perder suas famílias que buscam construir outra realidade de vida pelos rincões país a dentro. Diante da realidade desafiadora e por ela estar no limiar das urgências da Igreja, a realidade da família contemporânea é um desafio pastoral constituído para a Igreja no Brasil, e de forma particular no Maranhão, enfrentado pelos movimentos, serviços e pastorais que a ela se dedicam. “A família cristã, de fato, é a primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho à pessoa humana em crescimento e a levá-la, através de uma catequese e educação progressiva, à plenitude da maturidade humana e cristã” (Familiaris Consortio, n° 2). Conhecer o trabalho, compreender os esforços e colaborar com a missão evangelizadora das famílias é proclamar este evangelho, a família, a boa notícia anunciada ao mundo desgastado pela divisão. “A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja” (Amoris Lætitia pág. 03)

Matéria publicada originalmente em Jornal do Maranhão, edição 106, agosto de 2018

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