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13 de fevereiro: Dia Mundial do Rádio


Educadora e eu*

Alberto Robson da Conceição Castro, mais conhecido por Robson Júnior, farmacêutico e radialista de formação, em 33 anos de trabalho esteve diferentes momentos a serviço da Educadora, AM 560, a rádio da Arquidiocese de São Luís. Instrutor de oratória e locução para Rádio e TV, embora aposentado continua na ativa. Atualmente apresenta Mania Matinal Difusora, edição às 07 e 12h. Robson Júnior por três vezes foi premiado pelo Congresso de Jornalistas e Radialistas do Maranhão como melhor locutor.

Minha primeira relação com rádio vem dos meus pais; uma dona de casa legionária de Maria, Dina Maria José, que todos chamavam de Zezinha, fundadora da capela de Nossa Senhora da Vitória no Monte Castelo, atrás do Hospital Sarah, antes fábrica de óleo de babaçu carioca, e seu Alberto, um pescador de Paulino Neves que aos dezesseis anos pegou uma mala de roupas e foi pescar na Guiana Francesa de onde saiu às pressas e veio parar em São Luís onde trabalhou na primeira tentativa de ponte no São Francisco e que com a ajuda de uma assistente social, foi contratado e se aposentou trinta e cinco anos depois no D.E.R.

Lembro-me de na infância e adolescência, acordar lá pelas quatro e meia e ouvir no velho rádio Staub, que depois iria virar Gradiente, a voz do locutor aveludada que dizia: você ouve a rádio Transmundial, transmitindo da ilha de Bonaire nas Antilhas holandesas. Assim, fui me apaixonando por este veículo, sem saber que um dia minha história iria se misturar com a própria história do rádio.

Quase na metade dos anos sessenta, ouvíamos curiosos, chamadas em um novo canal de rádio, uma palavra pronunciada pelo locutor da futura rádio aguçou minha curiosidade: solidariedade. Lembro-me ainda que usavam a música de Catulo da Paixão Cearense nas primeiras chamadas da Rádio Educadora. Foi lá que mergulhei no mundo de Monteiro Lobato, pois eu primeiro ouvi o Sítio do Pica-pau Amarelo. Viajei na minha fantasia de menino nas aventuras do Pedrinho, nas travessuras do saci, loucuras da Cuca, imaginei o rosto da preta Anastácia e por aí vai. Foi para Educadora minha primeira carta para uma emissora de rádio. Eu ainda não sabia escrever, por isso pedi para que minha mãe escrevesse, pois queria saber mais sobre a palavra preconceito e ouvi emocionado dona Caronchinha ler a minha carta. Creio que tinha uns oito anos.

O tempo não para. Em 1978, passei no vestibular de Farmácia. Tentara medicina, minha mãe queria que eu fosse médico, e comecei cursar. Estava chegando ao segundo período quando numa sexta-feira um amigo goiano do curso de Educação Física, Joaquim, me convidou para participar de um grupo de igreja; JUAC, me disse que quem comandava era o padre, médico e escritor João Mohana. Explicou que as reuniões eram aos sábados e que logo após nós seguiríamos para a igreja da Sé para a missa celebrada por ele, Mohana. Agradeci o convite, mas não liguei muito e esqueci do fato. Na segunda, lá estava o Joaquim com um sorriso enorme e uma frase que me empurraria na direção de um destino que eu não havia previsto: “sentimos sua falta”. Aquele chamado era o meu divisor de águas.

Já na JUAC, num domingo após a missa, fui abordado por Mohana que me fez o convite para integrar a equipe da Rádio Educadora. Minhas leituras na igreja da Sé, ajudaram na escolha. Soube depois que deveria substituir Juarez Medeiros, de quem viria me tornar grande amigo, e por quem até hoje tenho grande admiração.

Em uma tarde de agosto, subi escadas, onde hoje há um elevador, para me encontrar com dom Mota, arcebispo de São Luis e comandante da Educadora. Conversamos por alguns minutos sobre temas de que não me lembro agora, mas fiquei impressionado com a atenção que dispensava ao rádio ligado sobre a mesa.

Assim, estreei no programa Para onde vais. Programa antes comandado por Juarez Medeiros e Anisete Souza e O diretor era Leonam Gomes, um cearense de formação pedagógica. Junto comigo estavam, Ubiratan também da Juac, que logo abandonou o projeto e Elizabeth Peixoto, pedagoga, amiga de Leonam que viria se tornar minha madrinha de casamento. Ficou comigo por algum tempo até que recebemos uma jovem de Cedral que tentava vender votos de rainha caipira para uma irmã. A moça falava pelos cotovelos. Ao final do programa, a convidamos para fazer parte da equipe, ficando ela no lugar de Beth que depois afastou-se. A jovem tornou-se a radialista Glória Rabelo, que apresentou além do Para onde vais, vários outros programas, dentre eles o Brincando com tia a Glorinha, infantil que ia ao ar aos domingos. Além de companheira de bancada no rádio, viramos marido e mulher.

A Educadora mostrou-se desde cedo um espaço generoso para o exercício da religiosidade e cidadania, uma espécie de palanque permanente para o meu aprimoramento como profissional e como ser humano. Tive a oportunidade de ter como amigos do dia a dia, ídolos como Carlos Henrique, o Galinho, apenas para citar o mais antigo que até hoje está em atividade. Lembro-me com saudade de amigos que se foram, dentre eles um negro de fala mansa e humor incrível, Hugo de Oliveira, Tony Castro, o melhor repórter com quem trabalhei. Oton Santos de voz bela e suave. Vou parar de citar nomes, pois todos, sem exceção, tatuaram a alma deste homem em eterna lapidação.

Até hoje me emociono ao lembrar de todas experiências ali vividas: das coberturas de carnaval sob o comando de Zeca Soares, um perfeccionista de carteirinha, das coberturas de tantos eventos religiosos, programas nos variados estilos.

Quando convidado para escrever algo sobre a Educadora, recebi o convite com o coração disparado e preocupado porque há tanto o que lembrar, mas posso antecipar que estou escrevendo algumas coisas sobre as experiências nestes quase trinta e sete anos de profissão e certamente a Educadora é um quadro guardado com carinho na parede da memória.

Mais de cinquenta anos se passaram desde que a Educadora iniciou suas atividades, sob a inspiração de dom Delgado, um visionário, e posso testemunhar que ela sempre esteve mergulhada em crise, e isto se deu pela linha editorial da qual ela não abre mão: ser o espaço onde o povo tem vez, onde o povo tem voz. Foi nesta faculdade do rádio que dei os primeiros passos até me aposentar em 06 de novembro de 2017 e seguindo os passos do mestre Carlos Henrique, também aposentado e em atividade, e continuo trabalhando até que o criador me chame de volta.

A Educadora é para mim o exemplo de algo que transcende o tempo e a intelectualidade dos homens. A Educadora é um presente de Deus para o seu povo e assim será até o final dos tempos em AM ou FM. Amém.

*Publicado originalmente em o Jornal do Maranhão, edição comemorativa de fevereiro de 2018.

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