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Palavra episcopal: Brasil, um país violento


Há um mito recorrente nos livros didáticos de História do Brasil, segundo o qual, diferentemente dos vizinhos hispano-americanos, seríamos um povo pacífico, cordial, sem revoluções sangrentas, preferindo resolver os conflitos na base da negociação e do conchavo. Era essa a minha percepção quando estudei a História do Brasil no antigo curso ginasial e clássico. Mais tarde, ao entrar em contato com autores como Capistrano de Abreu, José Honório Rodrigues, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré e outros, fui descobrindo o quanto de sangue encharca a história brasileira. A população indígena, de cerca de cinco milhões de pessoas, foi praticamente dizimada no choque ocorrido com a chegada do colonizador europeu. Um verdadeiro genocídio. A escravidão negra só pôde acontecer através de muita violência e de muita chibata por parte dos escravizadores, violência essa respondida pelos escravizados com muita revolta, com muito assassinato de senhores, com muita fuga, com muita resistência surda e calada.

Esse é o nosso passado.

No presente, vivemos numa sociedade efetivamente violenta. Por ano são mais de 60 mil mortes por homicídio, uma taxa acima de países reconhecidamente violentos como o México, por exemplo. O sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência, fez algumas considerações a respeito dessa realidade.

Ele observa que, no Brasil, as estratégias de desenvolvimento econômico têm privilegiado as questões de infraestrutura em detrimento da área social. Os investimentos em educação e outros investimentos sociais ficaram para trás. O Brasil experimentou um grande desenvolvimento econômico, mas que não foi acompanhado por um desenvolvimento social, como aconteceu na Europa e outros países do mundo. A par disso, ocorreu enorme mobilidade da população que, em um curto espaço de tempo, transferiu-se para os polos que estavam se urbanizando, sem que houvesse um investimento em segurança pública, em saúde pública, em saneamento básico, em educação. Em suma, houve uma defasagem entre o ritmo de desenvolvimento econômico e o ritmo do desenvolvimento social.

A violência é muitas vezes associada à emergência e crescimento do crime organizado, nomeadamente o tráfico de drogas. Waiselfisz relativiza essa questão, chamando atenção que pesquisas têm revelado que a metade dos homicídios são os chamados crimes de proximidade, tipo briga entre vizinhos, problemas familiares, vinganças pessoais, passionais, briga de trânsito, briga de boteco.

Segundo Waiselfisz, constata-se no Brasil a existência do que se pode chamar de uma verdadeira epidemia da violência. Mas o pior é que, ao lado dessa epidemia, parece ter-se estabelecido um outro tipo de epidemia a que o diretor da Anistia Internacional Átila Roque deu o nome de epidemia da indiferença. Trata-se de uma espécie de cumplicidade de grande parte da sociedade que prefere fechar os olhos para o que está acontecendo.

A Campanha da Fraternidade de 2018, mais uma vez, abordará o tema da violência. Não podemos desistir da utopia proposta por Jesus: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8).

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